O Rapaz do Metrô.
O Rapaz do Metrô.
Tomei o metrô correndo. Não podia perder o almoço. Eram 14:30h e o restaurante onde como fecha às 15:00. Por isso, o pé-na-tábua. Saltei dentro e quase morri sufocado de tanta gente que havia. Fico sempre pé e invocado quando não me dão lugar no banco dos idosos. Antes eu pedia pra saírem e as pessoas saíam. Hoje tenho medo de ser agredido. É que não aparento meus 63 anos, apesar da barba branca, crescida. Sou mais prum garoto de vinte e poucos anos. Exagero, eu sei, mas tem um pouco de verdade nisso. Olhei feio pruma moça sentada num banco azul, o meu. Depois dasanuviei: ela estava grávida. Bem, e daí?, pensei ainda depois. Gravidez não é velhice. As grávidas precisam deixar de frescuras. Elas geralmente são jovens e aguentam o tranco. Os idosos não. Eu não. (Mentira. Aguento sim).
Mas bateram no meu ombro. Quase morri. Um rapazola de lindos olhos azuis me disse que havia um lugar para mim do outro lado. Entrei em estado de graça. Era uma sensação esquisita mas prazerosa demais. Mais ou menos como aquela quando a gente é jovenzinho e se deparava com a possibilidade de namorar alguém. Um sorriso sem tamanho abriu-se no meu rosto e eu disse que iria descer na Praça da Sé, que era só duas estações à frente. Agradeci e o rapaz sorriu de novo e se engajou (de novo) com o seu Ipod.
Agora fui eu que bati no ombro dele. Sorrindo sempre. Só que não era um sorriso colado, proposital, daqueles estudados e sedutores para impressionar quem nos interessa. Era espontâneo. E tão bom, que eu flutuava no vagão cheio do metrô. Eu disse que era raro aquilo acontecer, ou seja um rapaz tão novo preocupando-se com um jovem bem mais velho, como eu.Risos. Eu continuei. "No Brasil, não temos educação. Não nos preocupamos com os idosos. Queremos tirar vantagem em tudo. Estamos sempre querendo lograr o próximo para abocanhar seus direitos. E quando os jovem sentam-se no banco dos idosos, geralmente fingem que estão dormindo. Que ele, o rapazola, era exceção. E que eu o parabenizava por aquele gesto. "Bom seria se os jovens do Brasil fossem como você".
Eu estava tão feliz que quando o metrô aportou na Estação Sé fui levado pra fora não por uma multidão mal-educada que não vê a hora de descer dos transportes, mas por asas de anjos. Sim, aquele anjo de olhar azul segurou meu braço e desceu comigo. Comecei a entrar num estado de graça total. Como podia aquilo estar acontecendo com um velhote como eu, de 63 anos, tendo em contrapartida um rapaz que no máximo teria 20? Pois é. Coisas deste mundo de Deus. E que acontecem só com abençoados por Ele como eu. Então, eu sou uma pessoa, distribuo meu sorriso largo com todo mundo, cumprimento todos. Dou, sim, dou lugar no metrô para pessoas mais velhas do que eu, mulheres que sinto estão com problemas de saúde, gente com criança pequena e coisas assim, por que não receberia uma dádiva tão especial do Senhor Todo Poderoso Pai?
Subindo a rolante de saída, pensei convidá-lo para um café, mas uma chuva despencava do céu, prenunciando alagamentos e trânsito parado pela cidade toda. Seria uma tarde de caos. Mas, que bom! Para mim, nada a ver: eu estava na companhia de um anjo jovem.
Gentilmente, o anjo abriu seu guarda-chuvas e me pôs em baixo, pertinho dele. Eu, bem, eu estou na idade de enfartar, e sabem como é que é. Me contive na intensa felicade, mas me segurei um pouco. Não porque quisesse. Apenas para não enfartar. Na Rangel Pestana, um ônibus azul passava. O rapaz me disse que tinha de apanhá-lo pra ir prô trabalho e tinha de correr se não chegaria atrasado. "Foi um grande prazer conhecer o senhor. Gosto de pessoas idosas. Procuro ajudá-las no que me é possível. Mas hoje, parece, que não fui muito útil. Então, deixo-lhe de presente o meu guarda-chuva. Ele está um pouco surrado, mas protegerá o senhor desta chuva forte. Eu corro pra apanhar o ônibus, que já está parando, veja aqui, e o senhor fica com ele. Até logo. Fique com Deus".
Bem...
Fiquei debaixo daquela chuva com o guarda-chuva surreal, cheio de rasgos e furos, e uma vareta quebrada, a olhar o anjo, o meu anjo promissor, que me sorria da janela do ônibus que apanhara. me dando chauzinho.
Chauzinho...!
Almocei quase aos prantos. Não tenho mais idade para tais decepções. Fui a um cinema depois e dormi durante o filme. E sonhei com o anjo que conhecera e que provavelmente nunca mais verei. Estávamos no mesmo cinema, de mãos dadas, assistindo àquele filme, cujo nome não sei (nem quero saber!). Eu estava feliz, apesar de tudo. Fora tal como se o sonho realmente acontecera. Quando me levantei, o guarda-chuvas tinha desaparecido. Procurei achar meio aflito, tateando pelas poltronas da minha fileira. Mas não o vi mais. Resolvi sair. Mas ao passar pelo moço que cuidava daquela sala de projeções, ele me disse que se fosse um guarda-chuvas que eu estava procurando, que um rapaz de olhos claros o levara quase antes de o filme acabar. E que ele, o moço do cinema, nada falara ao rapaz, pois percebeu que o mesmo estava junto comigo o tempo todo, e deduziu, por isso, que estávamos juntos.
Sorri feliz, tão feliz quanto feliz pode estar uma pessoa que ama pela primeira vez na vida.
"Não tem nada, não. O guarda-chuvas era dele. Ele que fique com ele. O filme foi lindo, moço. Até logo!".
Tomei o metrô correndo. Não podia perder o almoço. Eram 14:30h e o restaurante onde como fecha às 15:00. Por isso, o pé-na-tábua. Saltei dentro e quase morri sufocado de tanta gente que havia. Fico sempre pé e invocado quando não me dão lugar no banco dos idosos. Antes eu pedia pra saírem e as pessoas saíam. Hoje tenho medo de ser agredido. É que não aparento meus 63 anos, apesar da barba branca, crescida. Sou mais prum garoto de vinte e poucos anos. Exagero, eu sei, mas tem um pouco de verdade nisso. Olhei feio pruma moça sentada num banco azul, o meu. Depois dasanuviei: ela estava grávida. Bem, e daí?, pensei ainda depois. Gravidez não é velhice. As grávidas precisam deixar de frescuras. Elas geralmente são jovens e aguentam o tranco. Os idosos não. Eu não. (Mentira. Aguento sim).
Mas bateram no meu ombro. Quase morri. Um rapazola de lindos olhos azuis me disse que havia um lugar para mim do outro lado. Entrei em estado de graça. Era uma sensação esquisita mas prazerosa demais. Mais ou menos como aquela quando a gente é jovenzinho e se deparava com a possibilidade de namorar alguém. Um sorriso sem tamanho abriu-se no meu rosto e eu disse que iria descer na Praça da Sé, que era só duas estações à frente. Agradeci e o rapaz sorriu de novo e se engajou (de novo) com o seu Ipod.
Agora fui eu que bati no ombro dele. Sorrindo sempre. Só que não era um sorriso colado, proposital, daqueles estudados e sedutores para impressionar quem nos interessa. Era espontâneo. E tão bom, que eu flutuava no vagão cheio do metrô. Eu disse que era raro aquilo acontecer, ou seja um rapaz tão novo preocupando-se com um jovem bem mais velho, como eu.Risos. Eu continuei. "No Brasil, não temos educação. Não nos preocupamos com os idosos. Queremos tirar vantagem em tudo. Estamos sempre querendo lograr o próximo para abocanhar seus direitos. E quando os jovem sentam-se no banco dos idosos, geralmente fingem que estão dormindo. Que ele, o rapazola, era exceção. E que eu o parabenizava por aquele gesto. "Bom seria se os jovens do Brasil fossem como você".
Eu estava tão feliz que quando o metrô aportou na Estação Sé fui levado pra fora não por uma multidão mal-educada que não vê a hora de descer dos transportes, mas por asas de anjos. Sim, aquele anjo de olhar azul segurou meu braço e desceu comigo. Comecei a entrar num estado de graça total. Como podia aquilo estar acontecendo com um velhote como eu, de 63 anos, tendo em contrapartida um rapaz que no máximo teria 20? Pois é. Coisas deste mundo de Deus. E que acontecem só com abençoados por Ele como eu. Então, eu sou uma pessoa, distribuo meu sorriso largo com todo mundo, cumprimento todos. Dou, sim, dou lugar no metrô para pessoas mais velhas do que eu, mulheres que sinto estão com problemas de saúde, gente com criança pequena e coisas assim, por que não receberia uma dádiva tão especial do Senhor Todo Poderoso Pai?
Subindo a rolante de saída, pensei convidá-lo para um café, mas uma chuva despencava do céu, prenunciando alagamentos e trânsito parado pela cidade toda. Seria uma tarde de caos. Mas, que bom! Para mim, nada a ver: eu estava na companhia de um anjo jovem.
Gentilmente, o anjo abriu seu guarda-chuvas e me pôs em baixo, pertinho dele. Eu, bem, eu estou na idade de enfartar, e sabem como é que é. Me contive na intensa felicade, mas me segurei um pouco. Não porque quisesse. Apenas para não enfartar. Na Rangel Pestana, um ônibus azul passava. O rapaz me disse que tinha de apanhá-lo pra ir prô trabalho e tinha de correr se não chegaria atrasado. "Foi um grande prazer conhecer o senhor. Gosto de pessoas idosas. Procuro ajudá-las no que me é possível. Mas hoje, parece, que não fui muito útil. Então, deixo-lhe de presente o meu guarda-chuva. Ele está um pouco surrado, mas protegerá o senhor desta chuva forte. Eu corro pra apanhar o ônibus, que já está parando, veja aqui, e o senhor fica com ele. Até logo. Fique com Deus".
Bem...
Fiquei debaixo daquela chuva com o guarda-chuva surreal, cheio de rasgos e furos, e uma vareta quebrada, a olhar o anjo, o meu anjo promissor, que me sorria da janela do ônibus que apanhara. me dando chauzinho.
Chauzinho...!
Almocei quase aos prantos. Não tenho mais idade para tais decepções. Fui a um cinema depois e dormi durante o filme. E sonhei com o anjo que conhecera e que provavelmente nunca mais verei. Estávamos no mesmo cinema, de mãos dadas, assistindo àquele filme, cujo nome não sei (nem quero saber!). Eu estava feliz, apesar de tudo. Fora tal como se o sonho realmente acontecera. Quando me levantei, o guarda-chuvas tinha desaparecido. Procurei achar meio aflito, tateando pelas poltronas da minha fileira. Mas não o vi mais. Resolvi sair. Mas ao passar pelo moço que cuidava daquela sala de projeções, ele me disse que se fosse um guarda-chuvas que eu estava procurando, que um rapaz de olhos claros o levara quase antes de o filme acabar. E que ele, o moço do cinema, nada falara ao rapaz, pois percebeu que o mesmo estava junto comigo o tempo todo, e deduziu, por isso, que estávamos juntos.
Sorri feliz, tão feliz quanto feliz pode estar uma pessoa que ama pela primeira vez na vida.
"Não tem nada, não. O guarda-chuvas era dele. Ele que fique com ele. O filme foi lindo, moço. Até logo!".

Bom diaaa!!!
ResponderExcluirNão me exclui!
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